Arquitetura Atemporal: o que é Fixo Precisa Durar

Arquitetura Atemporal: o que é Fixo Precisa Durar

Vinte anos de arquitetura me ensinaram uma coisa que nenhuma tendência consegue substituir: ouvir. Ouvir de verdade. Não o que o cliente acha que quer, não o que ele viu no Instagram, não o que está na capa de uma revista. Ouvir o que ele vive, como ele usa a casa, o que ele realmente precisa que aquele espaço faça por ele, é assim que fazemos a arquitetura atemporal.

É por isso que acredito que, cada vez mais, o diferencial do arquiteto não está na criatividade, está na escuta. Com a inteligência artificial avançando sobre o processo criativo, o que vai separar um bom projeto de um projeto genérico é exatamente isso: a capacidade de transformar a personalidade de uma pessoa em arquitetura. E personalidade não se captura em referências. Se captura em conversa.

Clientes mais exigentes, projetos mais precisos

Os clientes chegam com mais acesso do que nunca. Imagens, projetos, produtos, soluções, tudo na palma da mão. E paradoxalmente, quanto mais acesso, mais perdidos eles ficam dentro do próprio gosto. Chegam com pastas cheias de referências de estilos completamente diferentes e acham que querem tudo ao mesmo tempo.

Esse é o papel do arquiteto hoje: não executar referências, mas filtrar. Entender o que há por trás de cada imagem que o cliente enviou. Fazer as perguntas certas, como a família usa a casa, quais ambientes realmente frequentam, o que faz sentido para a rotina deles, e a partir disso construir algo que seja deles, não de uma tendência.

E quando pergunto o que cansou na arquitetura de interiores, a resposta é sempre a mesma: projetos iguais. Ambientes que seguem uma fórmula, que poderiam estar em qualquer casa, assinados por qualquer um. Isso cansou. Não existe mais uma tendência universal, existe o que serve para cada pessoa. E o arquiteto que ainda não entendeu isso está projetando para o mercado, não para o cliente.

O que é fixo precisa ser atemporal

Existe uma distinção que guia todas as minhas decisões de projeto: o que é fixo e o que é solto. O que é solto, estofados, objetos, luminárias, almofadas, pode mudar. É fácil, barato, sem trauma. Mas o que é fixo, a pedra, a marcenaria, a hidráulica, a elétrica, envolve engenharia, custo e permanência. Ninguém troca uma bancada com facilidade. Ninguém substitui um piso sem obra.

Por isso, tudo que é fixo no meu processo tende ao neutro, ao clássico, ao que eu sei que não vai ficar datado daqui a dez, quinze, vinte anos. E as pedras naturais vêm exatamente para isso. Elas estão na natureza. São materiais que a gente não inventa, não cria do zero, são o que a terra já fez. E talvez por isso nunca se cansem. Talvez por isso atravessam décadas sem perder relevância.

Personalidade, cor, ousadia, essas entram nas peças soltas, nos detalhes que podem ser renovados. Um lustre diferente, uma poltrona colorida, um objeto novo. Isso repagina um ambiente inteiro sem tocar no que foi construído para durar.

Material marcante não é material excessivo

Tenho uma cliente que ama pedra iluminada. E quando alguém ama muito uma coisa, a tendência é querer usar muito dela. É papel do arquiteto conduzir esse entusiasmo, não apagar, mas equilibrar. Material marcante, usado em pontos estratégicos, cria protagonismo. O mesmo material, em excesso, perde o efeito e começa a datar.

O equilíbrio é sempre o critério. E isso vale para qualquer material, inclusive para os mais expressivos. A questão nunca é se o material é bonito, quase sempre é. A questão é onde ele está, com o que convive, qual intenção ele serve dentro do projeto.

Quanto mais clara for essa intenção, mais o projeto chama atenção. Mais ele tem repercussão. Mais ele conta uma história que é reconhecidamente daquela família, daquele cliente, daquele modo de viver.

Euro Terrazzo: o aproveitamento que me convence

 

Projeto da flávia Kloss
Foto: Flávia Kloss

Quando penso no Euro Terrazzo, o que mais me interessa não é só a estética, é o aproveitamento do material. A pedra natural gera muita perda no processo de extração e corte. Ver esses fragmentos reaproveitados, transformados em chapas com composição única e identidade própria, é para mim a maior conquista do produto.

E cada lâmina conta uma história diferente. Tem padrões que parecem saídos de uma confeitaria italiana, leves, quentes, cheios de cor. Outros têm uma leitura mais industrial, mais densa. Outros ainda parecem um fragmento de calcário antigo. Essa versatilidade é o que torna o material tão fácil de integrar em projetos muito distintos.

Se eu tivesse que escolher um padrão, e é difícil, entre tantas boas opções, escolheria o Colonial Bege. Porque ele tem presença de uma forma discreta e sofisticada. A base clara, os tons quentes e o desenho do terrazzo criam uma atmosfera elegante, acolhedora e, acima de tudo, atemporal. Ele conversa com madeira natural, tecidos claros, pedras e metais mais quentes. Pode ser usado em pontos especiais do projeto, quando a intenção é criar identidade com leveza.

No fundo, a escolha tem a ver com o que acredito na arquitetura: beleza com permanência, sofisticação sem excesso e materiais que contam uma história sem precisar gritar.

Para quem quer uma casa autoral mas tem medo de errar

O medo de errar, na maioria das vezes, vem de não saber o que se quer de verdade. Clientes que sabem o que valorizam, um bom som, uma iluminação especial, uma pedra natural, um spa no banheiro, chegam mais perto de projetos autorais porque conseguem direcionar onde investir com profundidade.

Autoral não é sinônimo de ousado. É sinônimo de preciso. É saber qual elemento tem protagonismo para aquela pessoa e explorar esse elemento com equilíbrio. Para alguns clientes, é a iluminação. Para outros, é a pedra. Para outros ainda, é uma poltrona com cor diferente.

O arquiteto que entende onde está o protagonismo de cada cliente e o usa de forma equilibrada entrega um projeto que ninguém vai olhar e dizer “é igual ao de fulano”. Vai olhar e dizer: é dela. É deles. É daqui.

 



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