O Material não mente: Reflexões sobre Projeto, Identidade e a Escolha do Revestimento

O Material não mente: Reflexões sobre Projeto, Identidade e a Escolha do Revestimento

Existe uma frase que eu repito para quase todo cliente na primeira conversa: me conta como você vive, não o que você quer. Porque o que as pessoas querem, elas já chegam sabendo. Ou acham que sabem. O que elas vivem é o que vai definir se o projeto vai funcionar de verdade.

Trabalho com arquitetura e design de interiores há anos, e o que mudou nesse tempo não foi a qualidade dos materiais nem o repertório dos clientes. O que mudou foi a quantidade de informação que chega antes da conversa. As pessoas chegam com pastas cheias de referências, imagens de estilos completamente diferentes, e em algum ponto dessa avalanche visual perderam o fio do próprio gosto. Cabe ao profissional encontrar o que está dentro de tudo aquilo, entender o que está sendo pedido por desejo real e o que está sendo pedido porque ficou bonito numa foto de um apartamento em Copenhague.

O briefing como ato de escuta

Por isso o briefing é, para mim, o momento mais importante de qualquer projeto. Não o briefing de o que você quer, mas o de como você funciona. Qual ambiente da casa você mais usa? Como é o seu dia? Você recebe? Tem criança? Cozinha de verdade ou cozinha para mostrar?

Essas perguntas parecem simples, mas elas evitam erros que nenhum material consegue corrigir depois. Uma bancada de travertino é belíssima, e em certas configurações, completamente inviável para o uso real da família. Eu prefiro dizer não na planta a deixar o cliente descobrir isso cinco anos depois.

Projeto bom não é o que parece bonito na entrega. É o que ainda faz sentido depois que a vida acontece dentro dele.

Projeto sem rosto

Foto: Natália Queiroz

Tem uma coisa que me cansa cada vez mais no mercado: projeto sem identidade de cliente. A gente olha e não sabe de quem é, nem quem mora e nem quem projetou. Tudo está muito parecido, muito seguro, muito dentro de um padrão que não ofende mas também não diz nada.

Eu não tenho um padrão que se repete. Cada projeto que assino parte de um desenho autoral, seja no mobiliário, seja numa peça decorativa que criamos especificamente para aquele espaço. Não porque personalidade seja obrigação, mas porque o projeto genérico é uma oportunidade desperdiçada.

Também tenho as minhas escolhas estéticas consolidadas: prefiro revestimentos mais suaves, mais secos, sem brilho excessivo e sem efeitos tridimensionais. Revestimento assim não falam a língua que eu quero falar nos meus projetos. E clareza sobre o que não te representa é tão importante quanto saber o que te define.

O material como narrativa e o Euro Terrazzo no Modernos Eternos

Foto: Euro Terrazzo Brasil

Tem projetos em que o revestimento é acabamento. E tem projetos em que ele é o argumento.

No ambiente que assinei na Modernos Eternos BH 2026, o Safras e Histórias, o Euro Terrazzo foi exatamente isso: um argumento. Eu queria trabalhar o moderno e o eterno em tensão, e o Terrazzo me deu essa ponte. É um material com tecnologia avançada de produção, absolutamente contemporâneo na execução, mas que carrega uma memória que remete ao granilite dos interiores brasileiros de décadas atrás. Não são materiais iguais, nem funcionam da mesma forma, mas existe ali uma conversa entre o que foi e o que é, e era exatamente essa conversa que o projeto precisava ter.

O que me interessa tecnicamente no Euro Terrazzo começa pelo fato de ser um material 100% maciço. Quando trabalhei a bancada em chanfro, dava para ver a composição acontecendo no bloco como um todo, as partículas de pedra distribuídas uniformemente do início ao fim. Isso é algo que só um material maciço entrega. E é o que permite acabamentos que revelam o material em profundidade, não só na superfície.

Atemporalidade como critério de especificação

Eu sou uma pessoa prática. Se um material é bonito mas vai gerar problema em cinco anos, eu não bato o martelo por ele. Durabilidade e funcionalidade entram na equação antes da estética, a estética de um material que não aguentou o uso real deixa de ser estética e vira arrependimento.

O Terrazzo passa por esse filtro com folga. É um material extremamente atemporal, que transita por personalidades e estilos muito diferentes. Eu gosto especialmente dos tons mais claros, eles conseguem conversar com objetos de decoração muito variados, e quando o cliente eventualmente muda a direção estética do espaço, o material acompanha sem exigir substituição.

Para mim, ele surpreende mais quando usado em cozinhas, bancada e piso no mesmo material, criando uma uniformidade de tons que eleva o ambiente inteiro. Mas também funciona como peça isolada, como foi a mesa no Modernos Eternos, que era o centro visual da minha sala de jantar. Nos dois casos, o que ele entrega é presença sem exagero, que é, no fundo, o que todo bom material deveria fazer.

Para quem quer ousar mas tem medo

O conselho que dou para quem quer um projeto com mais identidade mas tem receio de errar é: entenda o seu estilo antes de entender os materiais. Não adianta querer ousadia sem ter clareza do conceito que você quer trazer para o espaço. Com o conceito definido, tudo se encaixa: marcenaria, iluminação, revestimento, mobiliário. Quanto mais profundo esse entendimento, mais coeso fica o resultado. E quanto mais coeso o resultado, mais único ele é.

Projeto com identidade nasce de consistência.

Nathalia Queiroz é arquiteta e designer de interiores, com atuação em projetos residenciais de alto padrão que integram arquitetura e design de interiores. Assinou o ambiente Safras e Histórias na 11ª edição da Modernos Eternos BH 2026, com revestimentos fornecidos pela Euro Terrazzo Brasil.



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